Contos

QUANDO O OUTONO CHEGAR...

 

 O quarto estava escuro, apesar de ser um dia claro. Na realidade, nada ali lembrava um quarto, a não ser pela cama com colcha de retalhos, coberta por uma espessa camada de poeira. Não, aquilo não era um quarto... era um depósito de passado. Com portas e janelas muito bem cerradas para que nenhuma lembrança pudesse escapar. Havia inúmeros objetos, esquecidos. Um mancebo com uma das pernas quebrada, uma sombrinha velha e enferrujada, uma antiga caixinha de rapé, um pequeno baú, um criado-mudo todo perfurado de cupins, um abajur já sem a cúpula e uma bailarina de três braços. Isso mesmo, três braços. Mas não era uma bailarina qualquer. Feinha até, feita de papel, já amarelado pelo tempo, com uma cinturinha quase por partir de tão estreita, olhos muito vivos. E três braços. Um, próximo à boca, um, sobre a cabeça e o terceiro, maior que os demais, segurando um buquê de flores. Essa pequena criatura encontrava-se sobre o já citado criado-mudo.

 Todo mundo sabe, e isso não é novidade pra ninguém, que quando os humanos dormem, as criaturas inanimadas tomam vida. E, mal a velha senhora, única moradora do velho casarão em que estamos, adormeceu, a bailarina de três braços despertou.

 Acordou, levantou-se e começou a dançar. Rodopiava, dançava e flutuava sobre todos os objetos do quarto, acenando e mandando beijos para todos. Cantava uma melodia linda enquanto fazia seus giros e voltas. O criado-mudo, por sem mudo, nada falou mas era possível perceber que sorria. Quem primeiro disse algo foi a caixinha de rapé:

 - Menina bailarina, porque danças e estás tão feliz??

 - É tão bom despertar... Tão bom poder rodar... Não consigo conter minha alegria.

 - Essa é boa... Não vê então que somos tralhas esquecidas, à espera de irmos para o lixo, já sem utilidade... Não há motivos para alegria.

O abajur, que prestava atenção ao que se passava, disse:

- Ora, amiga caixinha de rapé, deixe-a em paz. Não vê que ela alegra este triste ambiente? Por que implicas?

A caixinha então respondeu:

- Já é insuportável ficar aqui esquecida... Eu, que tempos atrás enfeitava a cômoda de um luxuoso salão. Eu, que estive em mãos de nobres cavalheiros e delicadas damas, sou obrigada a ficar cheia de poeira, lamentando minha triste sorte. Agora tenho que suportar esta estranha bailarina de três braços...?? Faça-me o favor...

Nesta hora o criado-mudo resmungou algo, reprovando a caixinha. Disse então a velha sombrinha:

- Pois ela me faz rir... Gosto dela! Diga minha pequena, por que três braços?

E a bailarina respondeu:

- Fui feita assim... Nasci da criatividade e do amor de uma menina por sua mãezinha. Uso um dos braços para me equilibrar e desenhar delicados movimentos no ar. Um dos braços eu jogo beijos para as pessoas e o terceiro segura as flores que a menina ofereceu para sua mãe.

- Pois para mim não passa de aberração. Disse a caixinha.

A bailarina pouco se importava e continuava seu malabarismo, sua dança... Logo começou a cativar todos no quarto. O mancebo dançava com suas duas pernas que restaram, a sombrinha, o baú, todos... Até mesmo a caixinha, parou de implicar com a bailarina.

Ao raiar do dia, começava a primeira hora do outono. O tempo vibrava e ventava muito lá fora. No instante em que a velha senhora passava pela porta do quarto uma rajada de vento entrou pelas frestas e fendas da janela do quarto que estava trancado e a bailarina foi jogada pela porta abaixo, saindo do quarto e parando frente aos pés da velha. A senhora então abaixou-se, pegou a bailarina e ficou ali parada, os olhos distantes... Lembrou-se de quando era menina e, na sala de música, enquanto sua mãe tocava ao piano, desenhava esta que segurava agora. A mãe havia achado graça e perguntara porque três braços, ao que a menina respondeu:

- Um é para ela dançar e se equilibrar... Outro para ela jogar beijos para a senhora e o terceiro para te dar flores...

Era ainda fácil de sentir o beijo e o abraço quentinho que recebera de sua mãe quando entregara a bailarina... Lembrava-se de que aquele beijo e abraço fora dado nos primeiros dias de outono. E, com lágrimas nos olhos, soltou então uma saudosa risada ao meio de um sorriso. Um sorriso há muito sufocado... E sentiu-se viva... Destrancou a porta do quarto e entrou. Cheia de vida, tocou em todos os móveis que povoaram sua infância, acariciando-os. E sentiu-se viva... Abriu então a janela, deixando a brisa do dia entrar... Viu o jardim de sua casa de um local há muito esquecido... E sentiu-se viva ao ver cair a primeira folha de arvora do outono que estava chegando...

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